2º Festival Livro na Rua: uma entrevista com José Eduardo Gonçalves

(foto: Ignácio Costa)

Curador da primeira edição do FLIR – Festival Livro na Rua, José Eduardo Gonçalves retorna para cumprir a mesma função na edição deste ano. Foram dois anos de espera, mas durante este tempo, as livrarias viveram uma série de histórias emocionantes, nem parece que foi tão pouco tempo. Nós conversamos com ele, sobre o evento e o impacto da primeira edição na vida das livrarias de Minas Gerais:

CML: O primeiro FLIR foi considerado um sucesso. Como foi esperar dois anos para que uma nova edição acontecesse? Como foi a repercussão do evento?

JEG: Foi um longo tempo de espera, mas compreensível, diante das dificuldades que se apresentam para organizar um evento deste porte. O importante é que o primeiro FLIR deixou um legado de impressões muito positivas. Autores e leitores elogiaram, a mídia repercutiu, os livreiros e lojistas da região gostaram da experiência, ou seja, o saldo foi extremamente positivo para todos os envolvidos. Diante da experiência acumulada e do enorme potencial do evento, penso que é hora de avaliar a possibilidade de realizar o Festival todos os anos, inserindo-o definitivamente no calendário cultural e turístico da capital.

CML: No ano passado, movimentos de apoio às livrarias aconteceram em todo país, o que era uma das bandeiras da primeira edição do evento. Essa motivação ainda está presente na edição deste ano ou a proposta atual é dar um passo para frente e criar novos diálogos?

JEG: O primeiro evento aconteceu logo após o fechamento de algumas livrarias de rua bem conhecidas na cidade, em alinhamento com o movimento de encerramento de livrarias no Rio e em São Paulo. Foi um momento de susto e a bandeira mais importante era justamente a defesa desse modelo de estabelecimento. A crise continua e o modelo de negócio das livrarias ainda inspira muitos cuidados, mas o fato é que as livrarias, especialmente as pequenas, conseguiram reagir, identificaram os seus pontos mais fortes, apostaram na qualificação dos leitores e estão sobrevivendo. 

Ao mesmo tempo, o contexto geral do país ficou muito mais complexo e tenso. Estamos vivendo um momento em que a cultura, o conhecimento e o jornalismo estão sendo duramente atacados e hostilizados pelo pensamento ideológico radical que se instalou no governo federal e, em alguns casos, também nos entes estaduais. É um discurso medíocre e rasteiro que coloca a produção intelectual e o fazer cultural em constante zona de guerra.  Não há omissão possível diante disso

Portanto, mais que uma defesa visceral pela existência das livrarias de rua, o que o FLIR 2019 precisa traduzir, com igual potência, é a inquietude da sociedade diante das agressões frequentes à democracia e ao ambiente do conhecimento. Nossa melhor arma contra a barbárie é um livro nas mãos.

CML: O evento deste ano homenageia Eduardo Frieiro. Como essa homenagem se encaixa no FLIR e como ela influenciou na montagem da programação?

JEG: Eduardo Frieiro foi o autodidata mais fabuloso de nossa cena intelectual. Mesmo tendo cursado apenas dois anos e meio do curso primário, Frieiro transformou-se em refinado ensaísta, escritor, crítico literário, editor e professor. Foi um dos fundadores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras-FAFICH ,onde lecionou por 20 anos. Ele também coordenou a criação da Biblioteca Pública Estadual, sendo o seu primeiro diretor.  Frieiro foi, antes de tudo, um leitor metódico e obsessivo. O valor que ele dava aos livros, às livrarias e às bibliotecas é inspirador para a realização do festival. Tomamos de empréstimo o título de um  de seus livros como slogan para o FLIR – trata-se do livro de ensaios “Os livros nossos amigos”, publicado em 1941. Os espaços e as mesas de debate estão nomeados com títulos dos capítulos deste livro, tais como “A leitura ajuda a viver”, “Livros curiosos, ridículos e singulares” e “A letra é sagrada”. Frieiro nos contagia e mobiliza.

CML: O FLIR não é o único evento literário que acontece neste período em Belo Horizonte. Como você compara os outros eventos com o FLIR e quais as trocas que esses eventos podem fazer em termos de propostas e avanços?

JEG: Este é um período farto de eventos literários. Por um lado, isso é muito bom, mostra que há espaço e demanda para eventos que envolvam a cadeia produtiva do livro e as relações do livro e da própria literatura com a cidade. Cada evento tem a sua personalidade, a sua vocação. O problema é que a oferta de muitos eventos quase simultâneos prejudica uma percepção mais qualificada do perfil de cada projeto e acaba por confundir o público.  Nada contra nenhum dos eventos, ao contrário, estão todos muito bem organizados, com ótimas propostas. É um período em que podemos dizer, sem erro, que Belo Horizonte transforma-se na capital brasileira da literatura. Mas creio que todos sairiam ganhando se o calendário pudesse ser organizado de forma mais racional, incluindo um maior espaçamento entre os eventos. É como se a cidade concentrasse tudo em dois meses, no máximo, quando o ideal seria considerar a agenda de todo o ano. Nada disso tira o mérito de cada um dos eventos, todos eles capazes de atrair público local e também de outros lugares, tal a qualidade da programação. Há um corredor de oportunidades para o turismo cultural, com impacto direto na economia da cidade.  Por tudo isso, seria muito bom se, ao final desses eventos, os realizadores pudessem se encontrar e avaliar propostas de atuação conjunta, até mesmo para ganhar musculatura nas conversas com o poder público e com segmentos que se beneficiam de eventos, como restaurantes, bares e hotéis.

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